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Gordura, feminismo, 13 reasons why e compulsões alimentares

24/4/2017

Hoje começo a semana pensativa. Sério, é incrível como, às vezes, parece que tudo entra em sintonia - as reflexões da semana sobre compulsão, a leitura do livro Gordura é uma questão feminina, o seriado 13 reasons why... - te levando a uma grande reflexão.


Como já mencionei algumas vezes para você nas minhas redes sociais, eu vivi por muitos anos em sofrimento por causa de compulsões alimentares. E por ter essa afinidade pelo tema, e por ver tantas pessoas sofrendo com isso, eu tenho estudado há um bom tempo sobre o mecanismo, os gatilhos, as causas, as razões e os porquês de desenvolvermos e mantermos episódios compulsivos. Buscando entender porquê eu sofri com isso e porquê muitas e muitas outras pessoas também sofrem... E por ver que há tanta informação errada e mitos acerca dos episódios compulsivos (como, por exemplo, "é falta de força de vontade"), resolvi dedicar a semana passada inteira para o debate e conscientização sobre o tema nas minhas redes sociais (clique na imagem para ver mais).

 

 


E aqui eu coloco a grande sintonia. Nessa mesma semana passada, eu estive também lendo o livro Gordura é uma questão feminista, e também assistindo ao seriado 13 reasons why.


Certo, mas o que isso tem a ver?
 

Neste livro, a autora Susie Orbach explora as causas profundas da compulsão alimentar. Opressão feminina ainda existente, desigualdade entre sexos, competitividade onde só o mais forte tem valor, padrões (beleza, casamento, filhos, carreira, bens materiais) que precisamos corresponder durante a vida, e um senso de insuficiência que é aprendido desde a infância. Sim, se olharmos para o nosso contexto da sociedade, é nítido perceber que desde muito cedo aprendemos noções de competitividade, produtividade e insufiência. Ou seja, sempre precisamos melhorar, competir, produzir, ser mais, aparentar mais, mostrar mais: para aí então conseguirmos alcançar a noção de que "sim, você é suficiente".

 

- Que parte você mudaria primeiro?

- A cultura.


E aqui vejo um ponto de sintonia com o seriado 13 reasons why, que tem causado polêmica recentemente por discutir temas sensíveis como suicídio, depressão e bullying. Sinceramente, não sei se o recomendo ou não. Por um lado sim, pois o achei muito rico em discussões sobre valor pessoal, sobre bullying, sobre atos que parecem ser comuns e inofensivos mas que são agressivos, e sobre sermos melhores uns com os outros. Por outro lado, ele é doído de assistir. Dói percebermos que as pessoas machucam umas as outras, que as pessoas também estão machucadas ("por trás de uma pessoa que fere, existe uma pessoa ferida" - já dizia o dr. Augusto Cury), e dói demais ver uma pessoa perder pouco a pouco a sua percepção de que sua vida é importante, a ponto de não querê-la mais. É triste ver pessoas lidando com o sentimento de não valer nada, ou de precisar corresponder a diferentes expectativas para ter valor.

 

"Me desculpe. Você realmente feriu meus sentimentos."


 

E, então, ficam as perguntas, inclusive levantadas pela autora Susie Orbach:
 

* Será que é pelo fato de nossa existência estar tão pesada que precisamos de anestesias, como comida, como compulsões, como álcool, como excesso de tecnologia?
 

* Será que a compulsão é um afago, um conforto, uma anestesia para me ajudar a lidar com uma dor difícil?
 

* Será que somos tão cobrados, e ao mesmo tempo temos vivido com um grande senso de desvalorização e falta de sentido, que precisamos de proteção?
 

* Será que a compulsão é, ao mesmo tempo, uma forma de lutar. Ao comermos compulsivamente, comumente ganhamos peso. Será que o engordar é uma mensagem inconsciente de que pelo menos no meu corpo os padrões não podem invadir?
 

* Será que o ganhar peso é uma forma também de proteção contra um mundo árduo?
 

 

São muitas mensagens que podem estar nas causas mais internas da compulsão, e estes são apenas alguns exemplos. Por isso, preciso reforçar: sua compulsão não é falta de força de vontade!! E procurar um profissional que te ajude a entender e trabalhar sua compulsão é muito recomendável.


E agora, amarrando todo esse cenário levantado por essa leitura e seriado, eu tenho vontade de gritar: Ahhhhh! Até quando vamos viver acreditando que somos insuficientes e sem valor, sendo ensinados de que temos que ser/fazer/ter muito, e assim entendendo que nossa existência é sem sentido e problemática?


Até quando vamos viver sendo ensinados de que temos que corresponder a 12343454 expectativas, e que é errado sermos quem realmente somos, que precisamos ser alguém aceitável?
 

Até quando vamos acreditar que somos insuficientes?

 

Chega! Você NÃO é insuficiente. Você tem valor.
 

 

Acredite em mim:
* Você é importante.
* Você não precisa ser/ter o que te dizem que é necessário, você é já suficiente.
* Às vezes, a vida dói, sofremos, lágrimas caem. Faz parte da vida humana. Mas não é justo com você sofrer para alcançar padrões (beleza, família, carreira...) que lhe são impostos e que talvez não sejam o que você realmente queira.
* Todos tentamos nos proteger de dores e sofrimentos, e às vezes, as pessoas nos machucam justamente por isso. Provavelmente porque elas estão machucadas - e talvez por estarem machucadas por todo um contexto que é dolorido de viver.
* Como o personagem Clay (um dos principais) comenta: "as pessoas são importantes". Talvez precisamos ter mais respeito e cuidado com elas.
* Precisamos ter mais respeito e cuidado conosco também. Eu também sou importante, e você também é importante.

 

Talvez você não sinta isso hoje. Então, deixa eu te dizer de novo: você, sim você, é importante.
 

Arrematando os pontos então: essa leitura e esse seriado me levaram em uma reflexão que confesso até doeu. Não é nada legal ver que as coisas não são tão bonitas como aparecem na tevê. Que no fundo podemos estar vivendo tentando corresponder à expectativas, para encontrarmos nosso valor e nos proteger das dores.
 

Mas, por outro lado, é lindo refletir sobre como, sim, podemos nos apropriar do nosso valor, e revestirmos mais nossas vidas com empatia e amor por nós mesmos e pelas pessoas. Isso deixa a vida mais bonita.
 

Assim, terminei o fim de semana machucada com reflexões profundas sobre nossa sociedade. Mas inicio essa semana repleta de esperança em saber que nós todos somos importantes e podemos pouco a pouco revestir o mundo de mais amor.
As pessoas são importantes. Você é importante.


Não se esqueça disso. <3
 

PS.: Sei que este seriado está bastante em alta e levantando bastante polêmica. Não consigo opinar se você deve ou não assistir. Mas recomendo que se você for assistí-lo, o assista com cuidado e reflexão. Lembrando que todos são importantes, e tirando como mensagem a importância de nos lembrarmos mais disso e de tratarmos as pessoas dessa forma. 
 

PS2.: Na próxima terça. dia 2/5, às 18h, farei uma live no minha página do facebook! Vamos conversar sobre compulsão alimentar, sobre a minha história com ela e sobre busca de tratamento!

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