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Açúcar: seria ele o grande vilão?

Na última semana, a seguinte notícia foi bastante divulgada:

Como a indústria do açúcar passou a culpa para a gordura

A reportagem traz a notícia bombástica sobre o suposto patrocínio da indústria do açúcar nos estudos que relacionam a gordura com a doença cardiovascular, se insentando de qualquer culpa.

Frente à grande divulgação desta notícia, senti que precisaria manifestar também a minha opinião.

Primeiramente, há um tempo já é sabido que o famoso estudo do Dr Ancel Keys relacionando a gordura saturada com a doença cardiovascular não é tão fidedigno assim. Além do fato de ser um estudo observacional (que não é controlado), que gerou teorias e não comprovações, também é sabido que Keys excluiu alguns países do seu estudo que não confirmavam sua teoria... E já em 2014, a revista Time admitiu que a gordura não seria tão ruim assim quando publicou a reportagem "Abacando com a guerra à gordura".

Em segundo lugar, estudos patrocinados por grandes empresas alimentícias não são novidade. Uma revisão sistemática de 2013* examinou estudos sobre a correlação de bebidas adoçadas e obesidade, prestando grande atenção nos conflitos de interesses financeiros de corporações e grupos de especial interesse, tais como Coca-Cola, Pepsi, Associação de Refinadores de Milho, Associação do Açúcar e outras. Os autores observaram que quando os conflitos de interesse estavam presentes, havia a possibilidade de 83% de que o estudo não mostrasse correlação entre obesidade e o consumo de bebidas adoçadas. Ou seja, o suposto financiamento destas instituições manipularia os resultados.

Pronto! Os dois pontos acima já foram suficientes para trazer essa tão divulgada conclusão: o açúcar e seus produtores são maus e são responsáveis pelo aumento das taxas mundiais de obesidade, DM2 e outras doenças.

Mas seria isso mesmo? O açúcar seria, enfim, o vilão, que esteve este tempo todo acobertado pela indústria?

O dr. Alan Levinovitz (autor do livro 'A Mentira do Glúten: e outros mitos sobre o que você come) faz uma revisão bibliográfica e conversa com endocrinologistas especialistas, trazendo as seguintes reflexões:

Estes endócrinos colocam que a ciência a respeito da malignidade do açúcar está longe da conclusão, e o extremismo nesse momento é irresponsável. O endocrinologista do Hospital Infantil do Colorado, Philip Zeitler, coloca "Acho que a evidência para isto (relação do açúcar com obesidade e diabetes) é interessante, mas nem de longe tão convicente. Cientistas responsáveis não deveriam tirar conclusões precipitadas".

Além disso, em relação à tão discutida recentemente possibilidade de que o açúcar viciaria, o psiquiatra Hisham Ziaudden encontra várias deficiências nessa teoria. Segundo a teoria, o açúcar ativaria (iluminaria) o centro de recompensa do cérebro, o qual também é ativado no uso de drogas. Mas o psiquiatra rebate: "Você pode mostrar qualquer recompensa para o cérebro - açúcar, álcool, sexo, um filme - e ele ficará iluminado. Isso não diz nada sobre as coisas serem viciantes". Isto é, atividades prazerosas, como comer, se apaixonar, ouvir música, ativam o centro de recompensa, e isto é exatamente o esperado que aconteça - e não justifica um vício.

Assim, o dr Alan Levinovitz conclui, em seu livro, sua pesquisa dizendo: "É simplesmente falso afirmar que o papel do açúcar no diabetes, na dependência e na obesidade foi estabelecido". Ele ainda cita a metaanalise recente (2013)**, que analisou as evidências encontradas até o momento, e que conclui "Muito mais pesquisa é necessária".

Ou seja, ainda não há evidência científica para sairmos cortando todo o açúcar da nossa vida, ou para colocá-lo na posição de mal do século. Mas é o que temos feito - sem respaldo científico.

Segundo o endocrinologista Philip Zeitler "Tem havido muita escolha de armas em torno dos alimentos, algo que as pessoas levam muito a sério. Isso é um desserviço ao público, à ciência e à compreensão de como a ciência funciona"

Levinovitz defende muito a necessidade de basearmos a Nutrição em ciência legítima, com estudos bem conduzidos. Segundo ele, a Nutrição atualmente está coberta de mitos, e estamos constantemente procurando por mocinhos e vilões, a fim de sermos seres mais elevados. Ele comenta que isso se baseia na crença popular de que "você é o que você come", isto é, se você é gordo, é porque come algo que é gordo; se você é magro, come coisas magras. Uma crença que, na verdade, não é fundamentada pela ciência, e que muitas vezes até mesmo atrapalha a ciência.

O autor ainda comenta: "O discurso moderno sobre comida é recoberto de vocabulário moral e religioso. São alimentos "naturais" ou "antinaturais", "bons" ou "ruins". Alimentos ruins podem prejudicar você, mas são "pecaminosamente" deliciosos, prazeres "culpados". Alimentos bons, por outro lado, são "integrais", "de verdade" e "limpos" - termos mais adequados a manuais monásticos e tratamentos filosóficos do que a debates científicos.

De fato, segundo o dr. Paul Rozin, as razões para a fobia do açúcar sempre tiveram pouco a ver com ciência e tudo a ver com supertisção e medo puritano dos prazeres pecaminosos.

Mas a ciência da Nutrição não deveria ser baseada em suposições, teorias ou mitos!

E é por isso que nós temos a impressão de que toda hora a Nutrição muda de ideia!... "Ah, uma hora é o ovo, depois é o pão, depois é a margarina... Toda hora muda de ideia!" Você já deve ter pensado assim, certo? Mas a verdade é que a ciência da Nutrição não muda de ideia, e, sim, que essas teorias do alimento ruim foram comprovadas - e não deveriam ter sido divulgadas como uma verdade fatal...

Dizem que informação liberta, mas, como diz uma colega minha, no caso da Nutrição ela tem aprisionado. São tantas especulações a partir de estudos não conclusivos, à procura de um salvador ou vilão para poder responsabilizar, que vivemos a marcê de crenças limitantes baseadas em alimentos "bons" ou "ruins" ou "saudáveis" e "não saudáveis". Isso aprisiona! E estamos constantemente nos questionando: "Afinal, o que eu posso comer?"

Enfim, o resumo da ópera em virtude da notícia é: sim, a indústria do açúcar pode ter realmente manipulado os resultados do estudo (isso acontece bastante infelizmente!), porém isso não justifica, simplesmente, que o açúcar é agora o novo mal da sociedade. Ainda não há evidência científica para isto e há necessidade de mais estudos que sejam fidedignos e não baseados em mitos. Além disso, esta história toda de absolvição de alimentos e de vilanização de outros reforça o pensamento discutido acima: será mesmo que há um vilão? Será que a questão toda é "o que comemos?"?

"Se as pessoas realmente são sérias sobre a mudança da cultura alimentar, elas têm que oferecer uma alternativa viável. Demonizadores de alimento não fazem isso. Falar sobre comida desta forma é prejudicial. Cria pessoas neuróticas com o que comem, que veem os alimentos como puros ou impuros, bons ou maus", Levinovitz coloca.

Precisamos de uma alternativa viável! Não uma que esteja sempre procurando os culpados e mocinhos na alimentação. Não uma que queira encontrar quem são os vilões e mocinhos da saciedade (indústria vs. gurus). Não uma que traga, a toda hora, o questionamento "O que, afinal, podemos comer?".

Será que devemos comer um dia a manteiga e no outro a margarina só porque apareceram novas notícias ou supostos estudos dizendo isso? Será que devemos comer ovo num dia, e no outro abandoná-lo porque saiu um estudo que diz que ele é ruim? Será que não precisamos ter mais senso crítico?

"Um estudo científico, uma nova diretriz do governo, um excêntrico solitário com diploma médico pode alterar a dieta desta nação da noite pro dia", diz Michael Pollan. Ele lamenta como passamos a basear nossa alimentação em números, calorias e nutrientes, esquecendo-nos de comermos por prazer, sabor e alegria.

De fato, precisamos de uma alternativa mais viável. Precisamos começar a olhar a alimentação de uma outra forma.

Minha sugestão é sair desse campo de batalha, onde a indústria do açúcar manipula estudos para mostrar que a culpa é da gordura, e vice versa; onde gurus da saúde afirmam ter encontrado o vilão da alimentação ou o salvador que fará a população ser magra; onde vivemos na angústia sem saber o que podemos comer para ser bons, ou o que devemos deixar de comer.

Que tal abandonar todos estes mitos e especulações, e começar a olhar mais para dentro? A ouvirmos nosso corpo? A comermos com prazer?

Você deve estar pensando: nossa, que papo de doido!

Mas a verdade é que a alimentação é um processo natural e positivo, que deveria trazer bem estar e prazer! É um processo controlado pelo nosso corpo (por isso temos os sinais de fome e saciedade!), cuja finalidade é nutrição, bem estar e alegria!

Todos nós nascemos sabendo comer! Quando observamos bebês, percebemos que eles são altamente conectados com seus instintos, mamando quando têm fome e parando de mamar quando estão saciados. O corpo controla tudinho! E deveríamos nos manter assim até o resto da vida...

O problema é que nunca fomos incentivados a nos conectarmos com nosso corpo, e desde cedo em nossa vida fomos aprendendo muitas crenças do que é "bom" e "ruim" comer. Fomos aprendendo a viver de dieta. Fomos aprendendo que precisamos mudar nosso corpo. Fomos aprendendo que o certo era passar vontade. Que o correto era o "eat clean", ou seja, comer puramente, sem nada de "ruim". Que o certo era sofrer para poder ser saudável. E, assim, acabamos nos desconectando do nosso corpo.

"Preocupar-se com a comida não faz bem para você", Paul Rozin diz. Ele sugere que a obesidade e doenças cardiovasculares na América não são causadas necessariamente pelo o que comemos, mas pelo como comemos - de forma ansiosa, obcecada por Nutrição, contando calorias, esquadrinhando rótulos de alimentos, eliminando alimentos e então os comendo compulsivamente.

"Sem medo, comer não só vai ser mais agradável: também pode ser mais saudável", conclui Levinovitz. E de fato, alguns estudos (e meus pacientes!) têm mostrado que ao comer com prazer, ouvindo os sinais do corpo, sem dietas e sem culpa, você passa a se alimentar de uma forma equilibrada pra você, obtendo saúde e alegria!

E todos nós podemos voltar a se conectar ao nosso corpo, fazer as pazes com a comida e voltar a comer com prazer. Para isto, precisamos fazer o caminho inverso: silenciar estas vozes que nos ditam o tempo todo o que comer, vilanizando alimentos e absolvendo outros, e começar a ouvir o que, afinal, o seu corpo tem a dizer em meio a tudo isso.

PS.: Faça as pazes com a comida! É libertador <3

Referências:

Livro: Levinovitz, A. A Mentira do Glúten: e outros mitos sobre o que você come. Porto Alegre: CDG, 2015. 248p.

* Bes-Rastrollo, M. et al. Financial Conflicts of Interest and Reporting Bias Regarding the Association Between Sugar Sweetened Beverages and Weight Gain: A systematic review of sistematic reviews. PLoS Medicine, 2013.

**Ko, B.J. et al. Diet Patterns, Adipokines, and Metabolism: where are we and what is next? Metabolism: Clinical and Experimental, 2014.

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