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Compulsões alimentares: a questão do gesso e da perna quebrada

Ultimamente, no grupo do facebook Comendo sem Culpa, o qual ajudo a conduzir, percebi o relato de muitas pessoas sofrendo com a compulsão alimentar. Algumas pessoas queriam saber como se livrar delas, pois relatavam o grande sofrimento que elas traziam. De fato, compulsões alimentares são muito dolorosas.

Mas, antes, precisamos definir o que é compulsão alimentar. Um episódio compulsivo não é apenas um momento onde você 'exagerou' na comida, onde você comeu a mais do que o normal.

Pela definição do DSM-V, um episódio de compulsão alimentar é caracterizado pela 'ingestão de uma quantidade de comida maior do que a maioria das pessoas comeria no mesmo período de tempo e nas mesmas circunstâncias, em um período de 2 horas, acompanhado de uma sensação de perda de controle'. Ou seja, estes episódios se tratam de uma ingestão realmente muito grande de comida, acompanhada por uma sensação de descontrole ou desespero. Ao final, a compulsão deixa uma sensação de extrema tristeza e culpa, acompanhada por um estômago muito cheio ou outros sintomas gastrointestinais. Sim, compulsões alimentares são extremamente dolorosas, ferindo não só fisicamente, mas machucando a alma.

E não é a toa que ninguém quer passar por isso, e quem passa quer dar um jeito de acabar com elas. A compulsão geralmente está associada a um sentimento de 'esta é a última vez, nunca mais farei isso', e assim, a forma que as pessoas utilizam para acabar com elas é tentar controlar ao máximo a alimentação, em uma forma de compensar e voltar ao controle da situação, mas a restrição acaba piorando tudo, como vou falar ali embaixo, e a compulsão volta de novo, tornando esta situação em um ciclo.

Mas uma coisa que ninguém sabe ou reflete: as compulsões estão presentes por uma razão. Elas estão lhe incomodando por um motivo. E o que ninguém sabe é que as compulsões alimentares não são um monstro, ou algo que deve ser evitado. Na verdade, as compulsões alimentares aparecem pra lhe ajudar.

Esse é o momento em que você deve achar que eu estou louca! Onde já se viu algo tão doloroso vir para ajudar?

A autora Geneen Roth traz uma metáfora em um dos seus livros que eu nunca esquecerei, porque foi neste dia que eu finalmente compreendi qual o papel das compulsões alimentares! Segundo ela, as compulsões são um gesso! Isso mesmo, como em quando a gente quebra a perna, e tem que botar um gesso! O gesso muitas vezes incomoda, coça, pinica... mas ele está ali por uma razão: para curar uma ferida maior, que é a perna quebrada. Uma vez que a perna esta curada, não há mais a necessidade do gesso e ele é retirado!

As compulsões funcionam desta forma! Uma vez que o problema maior for resolvido, as compulsões gradualmente desaparecerão.

Mas tá, como eu vou saber qual é o problema maior?

As compulsões alimentares, muitas vezes, estão associadas a algum problema emocional, a algum trauma, ou alguma ansiedade que você tenha escondida aí no seu peito.

  • Às vezes, quando não sabemos lidar com um problema, podemos recorrer a comida, e isso vir na forma de compulsões alimentares. Algumas pessoas se referem estar 'comendo os problemas', e isso pode ser uma razão mesmo. Mas lembrando que não adianta você comë-los, os problemas ainda estarão ali depois que você terminar.

  • Às vezes, podemos ter uma ansiedade escondida, e o 'comer' parece vir como uma única solução para acalmar nosso peito.

  • Às vezes, podemos ter sentimentos que não sabemos como lidar com eles. Falei nisso em um post na minha página ontem (ver aqui), sobre como muitas vezes não sabemos ou não fomos ensinados a identificar nossos sentimentos. Às vezes, temos esse sentimento mas não sabemos o que ele é e nem como podemos lidar com eles, então acabamos comendo.

* É claro que estas situações, muitas vezes, podem levar a um comer emocional, e não necessariamente desencadear compulsões alimentares, pois cada ser humano é único, e responde aos estresses da vida de uma forma particular. De qualquer modo, se você se identifica com isto, seria muito interessante a procura de um profissional da saúde para ajudá-lo a identificar qual é a causa do problema, qual é a sua 'perna quebrada'.

As compulsões alimentares também podem estar associadas a questões físicas, como, por exemplo, resultado de dietas restritivas e proibitivas (já falei disso aqui). Ou seja, a pessoa restringe muito sua alimentação e proíbe alguns alimentos, até chegar um ponto em que ela não aguenta mais, e a compulsão alimentar vêm para resolver tudo isso: a restrição alimentar (ou seja, o possível deficit exagerado de calorias e nutrientes, com o qual o corpo não estava acostumado) e a proibição de certo alimento (também por questões psicológicas, que faz com que você queira muito aquilo que foi proibido). E isso gera um ciclo: você tem a compulsão alimentar, e, após isso, resolve compensar restringindo ainda mais a alimentação, e aí vem a compulsão de novo, e aí vai indo... A alimentação intuitiva/consciente, técnicas utilizadas por nutricionistas que seguem uma linha comportamental, pode ser muito interessante nesses casos. Eu falo um pouco sobre isso aqui.

Por fim, o que eu queria trazer aqui é isso: não trate as compulsões alimentares como aquilo que deve ser evitado. Trate-a como seu gesso! Ela está ali para te ajudar a lidar com um problema que foi gerado. O que você precisa fazer é tratar o verdadeiro problema, a sua 'perna quebrada'.

E eu indico muito a ajuda de psicólogos ou nutricionistas (principalmente nutricionistas que seguem uma linha mais comportamental) para lhe ajudar nisso!

*Além disso, quando estas compulsões começam a aparecer uma frequência muito grande (pelo menos uma vez por semana, por mais de 3 meses), você pode estar passando por um Transtorno Alimentar da Compulsão Periódica, e é realmente recomendado que você procure profissionais da saúde para lhe ajudar, viu?*

Assim, é muito importante identificar a sua 'perna quebrada' antes de tentar arrancar o gesso fora! Afinal, não adianta você tirar o gesso se a perna não estiver boa, né?

Como você vai caminhar? ;)

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